Flora e fauna da Rota Inca na Selva
Você compartilhará a trilha com criaturas que não existem em nenhum outro lugar da Terra.
O corredor entre Cusco e Machu Picchu, passando pelo Passo Abra Málaga e pelo cânion Urubamba, atravessa uma das regiões com maior biodiversidade do planeta. O ecossistema da floresta nublada da bacia superior do Amazonas, que a rota da Selva Inca percorre nos dias 2 e 3, abriga uma concentração de espécies vegetais e animais que reflete milhões de anos de história evolutiva em uma paisagem onde a combinação de altitude, umidade, temperatura e complexidade geológica criou condições para uma diversidade biológica difícil de encontrar em qualquer outro lugar do mundo. Este artigo apresenta o que você poderá encontrar na trilha e fornece contexto suficiente para que você entenda o que está observando.
OS ECOSSISTEMAS DA ROTA
Altos Andes — Ponto de partida do Dia 1 (3.500 a 4.350 metros)
O ambiente no topo da descida de bicicleta é a puna, o ecossistema de pradaria de altitude dos Andes. A vegetação aqui é esparsa e adaptada ao frio, ao vento e à alta radiação UV. As plantas dominantes são o capim ichu, que cobre as encostas em ondas douradas, as plantas em forma de almofada, que se agarram ao solo para conservar o calor, e as árvores queñual, que crescem no limite superior da linha das árvores e estão entre as árvores de maior altitude do mundo.
A fauna da puna inclui diversas espécies que existem apenas neste ecossistema. A vicunha, parente selvagem da lhama e um dos animais mais elegantes da América do Sul, pasta em pequenos grupos familiares nas encostas gramadas ao redor do desfiladeiro. O condor andino, com envergadura de até três metros, plana nas correntes térmicas que sobem do vale abaixo. O ganso andino ocupa as áreas úmidas ao redor dos lagos glaciais. O rato-da-puna, a viscacha (um grande roedor que se assemelha a um coelho com uma longa cauda enrolada) e diversas espécies de aves de rapina, incluindo o bútio-de-peito-preto, estão presentes nesta zona.
Transição da Floresta Nublada (2.500 a 3.500 metros)
À medida que a rota desce da puna, atravessa a zona de transição onde as primeiras espécies da floresta nublada começam a surgir em meio à vegetação de altitude em declínio. Essa zona é ecologicamente rica porque representa a sobreposição entre dois ecossistemas distintos, e espécies tanto da puna acima quanto da floresta nublada abaixo estão presentes simultaneamente.
As samambaias arbóreas que caracterizam esta zona de transição estão entre as formas de plantas mais antigas da Terra, com seu design básico inalterado por centenas de milhões de anos. As bromélias que se fixam aos troncos e galhos das árvores ao longo desta zona não são parasitas, mas epífitas: plantas que utilizam as árvores como suporte físico, mas obtêm seus nutrientes do ar, da chuva e dos detritos que se acumulam em sua estrutura central que armazena água. Cada bromélia é, na prática, um pequeno ecossistema autossuficiente que sustenta sua própria comunidade de insetos, anfíbios e microorganismos.
Floresta Nublada Primária (1.500 a 2.500 metros)
A floresta nublada primária, atravessada pela Trilha Inca na Selva no terceiro dia, é o ambiente com maior biodiversidade de todo o percurso. O número de espécies de plantas por quilômetro quadrado nesse ecossistema supera o de quase qualquer área comparável no mundo. O número de espécies de aves registradas dentro do Santuário Histórico de Machu Picchu, que engloba a floresta nublada por onde a trilha passa, ultrapassa 400, representando uma das maiores densidades de espécies de aves da América do Sul.
PLANTAS PARA PROCURAR
Orquídeas
A floresta nublada da região de Machu Picchu é um dos centros de diversidade de orquídeas mais importantes do mundo, com mais de 300 espécies registradas dentro do santuário. A maioria das orquídeas da floresta nublada são epífitas, crescendo em galhos e troncos de árvores em vez de no solo, e são adaptadas às condições específicas de luz, umidade e temperatura da faixa de altitude que ocupam. Elas variam em tamanho, desde minúsculas flores menores que uma unha até grandes estruturas elaboradas que atraem polinizadores específicos. Seu guia indicará as espécies de orquídeas ao longo da trilha nos dias 2 e 3.
Árvores Polylepis
As árvores de queñual ou polylepis, que crescem no limite superior da linha das árvores, são notáveis por sua adaptação a condições extremas. Sua casca avermelhada, que se descama, proporciona isolamento contra o frio, e sua forma de crescimento densa e retorcida minimiza a exposição ao vento. Elas estão entre as espécies de árvores mais ameaçadas dos Andes devido ao desmatamento histórico para agricultura e lenha, e sua presença ao longo dos trechos superiores da Rota da Selva Inca indica áreas onde a cobertura florestal original foi preservada.
Plantas Medicinais
As comunidades ao longo da rota da Selva Inca acumularam, através de gerações de observação e uso, um conhecimento detalhado das propriedades medicinais das plantas que crescem no ambiente da floresta nublada. Seu guia apresentará diversas espécies durante os trechos de trekking, incluindo plantas utilizadas para o tratamento de feridas, problemas digestivos, respiratórios e para o alívio dos sintomas da altitude. Esse conhecimento representa uma farmacopeia não escrita da floresta nublada andina, que os etnobotânicos ainda estão documentando.
ANIMAIS PARA FICAR DE OLHO
Urso de Óculos
O urso-de-óculos, a única espécie de urso nativa da América do Sul, habita a zona de floresta nublada pela qual passa a trilha Inca Jungle. É tímido, predominantemente noturno, e avistá-lo na trilha é raro, mas não impossível, principalmente nas primeiras horas da manhã do terceiro dia. As marcas claras características ao redor dos olhos, que lhe dão o nome comum, são visíveis nas poucas pegadas e imagens de armadilhas fotográficas que documentam sua presença no santuário.
Galo da Rocha
O galo-da-serra-andino é indiscutivelmente a ave mais visualmente impressionante da floresta nublada e uma das mais espetaculares da América do Sul. O macho apresenta uma coloração laranja-avermelhada extraordinária, com uma crista em forma de leque que cobre a maior parte da cabeça. Habita áreas rochosas da floresta nublada e se reúne em locais tradicionais de exibição chamados leks, onde os machos realizam elaboradas demonstrações de cortejo. Seu guia conhece a localização dos leks ativos ao longo da rota e organizará paradas nos momentos apropriados, quando a atividade for mais provável.
Beija-flores
O corredor da floresta nublada da rota da Selva Inca abriga mais de 30 espécies de beija-flor, desde o beija-flor-gigante, o maior membro da família e comum nas altitudes mais elevadas da floresta nublada, até espécies minúsculas que pesam menos que uma moeda e são visíveis apenas como um breve brilho metálico na borda de uma flor. Os beija-flores estão presentes ao longo da trilha durante os dois dias de caminhada e são um dos grupos de aves mais facilmente avistados na rota.
Anta-da-montanha
A anta-da-montanha é um grande herbívoro, principalmente noturno, que habita a floresta nublada em altitudes entre 2.000 e 4.000 metros. Avistamentos físicos na trilha da Selva Inca são muito raros, mas as grandes pegadas características da anta são visíveis em trechos lamacentos da trilha e fornecem evidências da presença do animal, que a escuridão e a vegetação mantêm em grande parte oculta dos excursionistas diurnos.